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Após legalização, aborto não mata mais mulheres no Uruguai

Discussão no Facebook sobre aborto – achei tão boa que decidi copiá-la aqui.
Sei que é polêmico e foge ao foco deste blog, mas as discussões no Facebook se perdem, e considero que algumas discussões precisam ser mais permanentes.

Tudo começou com um post meu, a partir de um artigo sobre a legalização do aborto no Uruguai:

Antonio Azevedo – 24/07/2013 – Facebook
Se é lícito mexer no próprio corpo para modificá-lo, consertá-lo ou melhorá-lo, também é lícito fazer um aborto. É lógico – só deve ser mãe quem quer ser mãe.

Se for para proibir isso, proibam todas as cirurgias, desde catarata (se Deus cegou alguém, não se deveria fazê-lo enxergar de novo) até costurar vítimas de acidentes (se Deus permitiu que alguém se cortasse, ninguém deveria juntar as partes…).

http://www.pragmatismopolitico.com.br/2013/07/apos-legalizacao-uruguai-nao-registra-morte-de-mulheres-por-aborto.html

Comentários:
Alcione Giacomitti
Antonio, mas a criança dentro da mãe não pode ser comparada com parte do corpo dela, jamais, imagine só! Fazer uma catarata para voltar a enxergar é bem diferente de condenar um inocente a morte, minha nossa que comparação – desculpe a sinceridade. Nada, nem pai, mãe ou quem quer que seja, possui o direito de condenar alguém a morte, ainda mais um ser que não pode se defender. Em uma época aonde as pessoas defendem até o bois no pasto e cachorros nas ruas, imagine só seres humanos! E essa de que não existe mais aborto no Uruguai, é piada. Luz e paz.

Antonio Azevedo
Entendo isso, mas eu penso da maneira lógica – tudo é vivo e tudo tem vida própria. Todas as células do corpo tem vida e, com apropriados nutrientes, pode ser mantido vivo fora do corpo. Há um fígado de uma mulher que morreu a mais de cem anos que tem células vivas espalhadas em vários laboratórios. Nem por isso é considerado problemático matar tais células, para fins de pesquisa. Não é porque são células humanas que tem possibilidade de sobrevida que elas são tratadas como indivíduos completos.

Da mesma maneira um feto humano, no corpo da mãe, é uma potencialidade de indivíduo, não um indivíduo independente. Se fosse assim, todo espermatozóide e óvulo também deveriam ser considerados indivíduos. Um feto não é “condenado à morte” se a mãe não estiver disposta a cuidar dele, e sim “condenado a uma subvida”.

Respeito o direito à vida e sou contra o assassinato, mas considero que a decisão de vida é da gestante, e não se deveria proibir que ela decidisse pelo que acha melhor. Proibir que uma gestante não tenha acesso aos serviços médicos para abortar, se assim o desejar, é imiscuir a visão moral de outras pessoas sobre a visão moral da própria mulher gestante. E sou contra impingir a visão moral de uma pessoa contra a outra.

Sou espiritualista, Alcione, você sabe, mas a minha visão do que é vida prima primeiro pela independência do indivíduo. Assim, não concordo que a lei deva decidir se alguém opta pelo aborto ou eutanásia. Só a própria pessoa. O direito à vida e o direito à morte é do indivíduo.

Adriana Antonelli
Alcione, quem trabalha na area de cuidados de familia sab muito em que em boa parte das vezes o aborto seria a unica maneira de dignificar seres humanos que já nascem fadados a tragédia.

Maristela Lopes
Voces nao pensam na hipotese de que existem pessoas para adotar as criancas. E mais, prrna figado etc nao recebem um espirito que precisa ter uma vida para crescimento.

Antonio Azevedo
Sim, penso que existem pessoas para adotar sim. Mas é decisão da mãe se quer ter o filho para cuidar ou para adotar. Não é proibindo a ela a opção de abortar. Isso é uma violência contra a mãe, sob a alegação de cuidar do potencial “filho”.

Quanto à questão da espiritualidade, sob o meu ponto de vista tudo é vivo e espiritual. O espírito não “entra” no feto, ele já está em qualquer lugar e se manifesta de acordo com a potencialidade expressa, seja na célula, no vegetal, animal ou mineral. Assim, abortar um feto não é “impedir” que um espírito se manifeste, pois há milhões de opções para isso.

Sim, cuidemos das crianças, respeitemos a vida, mas não façamos desta bandeira uma obrigação dos outros, nos arvorando de únicos que sabemos as decisões certas para o restante da humanidade. Abortar é uma possibilidade viável em certos casos – não há condições de cuidar adequadamente de todo nascituro e a natureza é pródiga – se toda mulher capaz de ter filhos em idade fértil não impedisse a fertilização, seja por camisinha, DIU ou, em alguns casos, aborto, teria cerca de dez a vinte filhos, no mínimo. Isso é inadequado para condições modernas e nenhum planejamento familiar, social e terrestre comporta isso.

Todos os animais possuem, pela natureza, uma possibilidade de gestação muito superior ao que devem sobreviver, justamente porque as condições naturais são muito inóspitas. Mas o ser humano não. Ele é o seu principal inimigo. Se proliferar desordenada e inadequadamente, a superpopulação prejudica o planeta. Permitir que isso seja uma escolha da gestante é a melhor recomendação.

Nâo estou dizendo aqui que o aborto é bom. O melhor é educar a mulher para que ela se previna, para não haver a possibilidade de fecundação. E educar o homem também, principalmente a juventude. Mas estou acompanhando o artigo – descriminalizar o aborto é bom – evitará mortes inúteis feitas através de abortos ilegais e antihigiênicos. E ajudará aos governos a avaliarem melhor como evitar o excesso de abortos, conscientizando as gestantes que desejem interromper a gravidez, para que, da próxima vez, utilizem meios menos invasivos. Uma coisa é proteger a vida, outra é obrigar outra pessoa a ter uma vida que não deseja, devido às suas próprias crenças.

Alcione Giacomitti
Mas Antonio, o feto é um ser vivo é diferente de células, de fígado. Você considera como ser vivo apenas depois que saiu da barriga da mãe? É isso? mas as pesquisas mostram que ja nas primeiras semanas o feto é um ser vivo, que aliás, é ele que passa a controlar as atividades da mãe, ele tem vida própria, não é um figado, uma célula. Apenas uma reflexão – Você fala do direito da mãe em abortar, mas e quem fala pelo direito dos inocentes em continuar vivo? Mãe adulta pode se virar, me desculpe, vai trabalhar, pedir esmola, como dizia Madre Tereza de Calcutá ” não as matem, deem para mim que eu cuido de todas elas”. doe para adoção. Se Maria tivesse abortado Jesus, não existiria na terra mais pura expressão do amor que pisou aqui. Nem vou entrar na questão espiritual, porque dai a coisa complica de vez. Mas como um cristão que sou, irei defender a vida em toda a sua expressão. Agente pode errar, mas nao podemos tornar o erro em algo oficial. Apenas na primeira semana em que o aborto foi liberado no Uruguai, mais de 200 mulheres abortaram legalmente. Acho que agente deve defender sempre quem não consegue se defender, os adultos tem mais condições de se virar.

Vanzinha Brs
Tem mulher que quando morrer o caixão terá que ser em forma de y pelo costume das pernas. Se quer transar sem cuidados, tem que se responsabilizar pela gravidez. Exceto na minha opinião casos de estrupos ou má formação ou risco de vida para ambos.

Antonio Azevedo
Alcione, considero tudo vivo. A vida está em tudo. Se, no futuro, conseguirmos construir um ser orgânico complexo o bastante, e conseguirmos montar um cérebro cérebro a cérebro, sinapse a sinapse, ele possivelmente terá pensamento, consciência e alma. Não porque o ser humano “lhe deu vida” mas porque, sob o meu ponto de vista, tudo é vivo, e apenas construimos, não doamos a vida.

Desta maneira, não vejo que o feto tem um momento especial de quando lhe entrar o espírito. Ele, como toda célula viva, está infundido de espírito. E também está cada átomo do universo, mesmo daquilo que a nós nos parece “morto”.

Mas esta visão espiritualista tem conexão mas não é o principal ponto pelo qual considero adequada a posição do Uruguai de permitir o aborto legal.

Penso eu que o respeito à decisão individual é o mais importante. Se o aborto fosse legalizado em todo o mundo, em primeiro lugar a população mundial diminuiria um pouco. Os governos ficariam preocupados – a média da população principiaria a envelhecer. Um pais com mais velhos e menos jovens perde capacidade produtiva e poder no mundo. Haveria mais incentivos para jovens ter mais filhos e cuidar deles com muito carinho. Cada criança efetivamente nascida seria vista, social e politicamente, de forma ainda mais importante, e não deveria ser desperdiçada em uma vida pobre, inculta e não produtiva. Vamos falar claramente: uma criança não seria mais um “bem abundante” e sim um “bem escasso”…

A paternidade seria mais incentivada – e não por obrigação, por proibição legal do aborto, e sim porque a nossa sociedade precisaria de cidadãos jovens e produtivos e pais conscientes de seu papel. Um poderoso efeito político e social de apoio e respeito às crianças apareceria – não coercitivamente, obrigando as mães a terem filhos, o que é uma violência social contra mulheres incultas e pobres, pois lhes negam o direito de escolha; e sim estimulando as mães que efetivamente desejam ter filhos que os tenham e cuidem bem de suas crianças.

Ao invés de “bolsas-família” – que incentivam mães a terem filhos em sucessão – teríamos uma discussão mais lógica sobre as formas de equilibrar a sociedade humana. Caminhamos para 8 bilhões de humanos, se não me falha a memória. Somos um enxame comendo o planeta. É também uma visão espiritual pensarmos em nós, humanos, como células coletivas, e que devem se restringir, para evitar que destruamos o equilíbrio natural com todas as outras espécies vivas.

Alcione Giacomitti
Adriana, não seria muita pretensão fazer uma pré-seleção das crianças que podem ou não ter um futuro sem tragédias? Depois, existe algo muito mais importante, a meu ver – o ser, o espírito – aprende muito mais com duras provas que em uma vida regada. Também lembro de ter visitado áreas do planeta, como na Bolívia, o Antonio acho que passou comigo por lá, não lembro se nessas áreas . Só existia pedra, nada para comer. Nunca vou esquecer daquilo, cheguei a pensar que seria melhor aquelas crianças nem terem nascido, é sério. Um dia, em minha mente, passando por lá de novo, uma voz soou em minha mente: ” Alcione, o que você considera dor e sofrimento, por ter uma vida confortável, não pode servir de comparação. Tudo já foi tirado dessas crianças, não tire também a ultima coisa que lhes restaram; poder conceber, mesmo que em dor, a experiência grandiosa da vida, mesmo que por pouco tempo”. Foi mais ou menos assim essa experiência, nunca irei esquecer. Depois disto passei a ver a vida de outra forma, é isso.

Vanzinha Brs
O que falta no caso de pessoas sem cultura ou condições financeiras é assistência médica, social e educação familiar.

Alcione Giacomitti
Azevedo, ja me perguntei sobre isso, se pudêssemos conceber em partes um ser, se teria espírito. Mas veja, ninguém sabe, é isso. O que eu sei, é que a vida é grandiosa, e deve ser preservada. Entendo seu ponto de vista, mas sou cristão, tem coisas que não importa o que eu pense, aprendi que existem coisas que devo crer independente de minha visão. Não sou Deus, tenho deixado de ter opinião própria sobre temas complexos. Hoje, por não conseguirmos deter as drogas, tem gente querendo liberá-las. Por não conseguirmos deter a criminalidade, tem gente a favor da pena de morte. Por não conseguirmos deter as crianças de nascerem, se pensa em eliminá-las por lá mesmo.

Antonio Azevedo
Curioso, isso, Alcione. Mas não seria interessante perguntar à essas mães e à essas crianças se elas prefeririam viver nesta dificuldade ou se prefeririam uma vida mais confortável, com mais fartura?

A compreensão do “sacrifício como aprendizado” é uma verdade, mas penso eu que pode-se aprender também de forma divertida e confortável. Se me derem a escolha, prefiro aprender não pela dor, e sim pelo prazer. Se assisto uma aula, prefiro uma aula desafiadora mas interessante e alegre, e não chata e cansativa.

Se for uma lição de vida, eu posso entender que o fracasso e a dor nos ensinariam, mas também seria uma maldade se eu obrigasse outra pessoa a passar pelo mesmo fracasso e pela mesma dor que eu passei. Mesmo sabendo que esta dor poderia ensiná-la tão bem quanto ensinou a mim, me sinto no dever de advertí-la dos potenciais perigos e usaria minha compreensão do que passei para ajudá-la a evitar a dor.

Maristela Lopes
Bem pessoal nao vou ficar nesta discussao. Sou espirita. Sou contra aborto. Acredito na vida. Tenho uma pessoa em minha familia que foi adotada porque uma mulher optou por nao abortar. Luz.

Vanzinha Brs
Tony, infelizmente isso é uma utopia. Ninguém pode viver as tristezas ou alegrias do outro. Nós crescemos com as próprias experiências sejam boas ou más.

Antonio Azevedo
Realmente, eu não sigo o cristianismo. Minha visão mística não segue uma religião formal. Sou gnóstico (“aquele que estuda a espiritualidade”) e não um agnóstico (“aquele que não se importa com a espiritualidade”) e nem ateu (“aquele que tem certeza que não há espiritualidade”). Mas também não sou crente (“aquele que tem certeza de que há espiritualidade”).

De qualquer modo, advogo que a opção pela moral é do individuo, e por isso sou contra que outras pessoas proíbam que uma mulher aborte. Ela que deve decidir isso.

Quanto à pena de morte, sou contra justamente porque é uma decisão de uma pessoa sobre a outra. Proibir alguém de viver em determinada sociedade, seja por banimento, ou prisão, me parece viável como punição para atos antisociais.

Sobre drogas, a questão é diferente. As drogas impedem a decisão consciente. Prestar atenção ao seu uso e impedir seu uso indiscriminado é justamente porque uma pessoa sob seu efeito já não pode escolher. Mas isto é uma outra enorme discussão. 🙂

Antonio Azevedo
Entendo sua posição, Maristela. Normalmente não discuto estes temas justamente porque tendem a discussões extremadas e acabam suscitando sensações desconfortáveis. Mas, de qualquer modo, é salutar de vez em quando estes embates racionais e emotivos, se temos a sobriedade de manter a cabeça calma enquanto discutimos crenças e valores tão profundos…

Não tenho a intenção de mudar o ponto de vista de ninguém. Apenas, ao ver a notícia, tive a intuição de defender mais claramente o que penso. Espero que não tenha ferido por demais a visão dos outros. Achei salutar a discussão e apreciei a sinceridade de todos os participantes. Fiquem com Deus.

Alcione Giacomitti
Temos pontos de vista filosóficos diferentes, Azevedo. O bom que buscamos a verdade, entendo isso. de qualquer maneira, também sou um pesquisador, e todas as tradições sagradas da história, são pela vida. No budismo, ate os animais são sagrados. No hinduísmo, o mesmo. Agora, te convido a ver mo que ocorre com um feto antes do aborto, tudo que ele passa. A tamanha dor e sofrimento, esse video foi produzido por médicos contra lo aborto para justamente desmistificar a ideia de que o feto nao sofre nada. É muito forte, mas merece ser visto. http://www.youtube.com/watch?v=Zj8bXUMvyn4

Alcione Giacomitti
Foi ótimo voce postar isso, esses temas precisam ser debatidos, ainda mais com pessoas de tão alto nível, nisso nasce a luz. Quando o debate é bom, todos crescemos. Luz e Paz a todos, esta uns 3 graus negativos em Curitiba, ou vou dormir ou congelo. Veja o video, ate mais….

Antonio Azevedo
Ainda está bufferizando, vou assistir daqui a pouco. Concordo que a dor do feto deve ser intensa. Mas isto não me demove do fato de que a escolha deve ser da mãe, e não de um instrumento legal.

Para evitar o aborto deveríamos trabalhar mais na educação das jovens mães, sim, concordo, para que não precisem abortar. Inclusive disse mais acima que é nisso que acredito que irá acontecer, se liberarmos o aborto. Todos os esforços serão focados nos meios de conscientizar as mulheres, ANTES de se tornarem gestantes, ao invés de um confortável sistema de apenas proibir o nascimento, mesmo indesejado. No entanto, proibir a cirurgia me parece uma intromissão sobre o direito de escolha da mãe.

Vou assistir, com certeza me sentirei tocado pelo sofrimento do feto, como também me sinto pelo sofrimento dos animais no matadouro e nas granjas, que sofrem a vida toda para alimentar o homem. No entanto, o meu foco é ajudar, no que for possível, para que o homem desenvolva fontes de proteína vegetal que o alimentem com bom sabor, e não “proibir a comercialização da carne”. Perceba a diferença: não quero imiscuir a minha visão e valores pessoais na vida dos carnívoros, que culturalmente aceitam matar e escravizar os animais para seu prazer. Prefiro dar a eles opções tão boas mas que não envolvam o sofrimento de outros seres vivos. Assim, naturalmente, aos poucos, deixarão de comer carne.

Da mesma maneira, ao meu ver, a melhor forma de acabar com os abortos não é com a sua criminalização. Ao contrário, é pela educação dos jovens, fazendo-os ter consciência de como proceder perante a sua sexualidade, e ajudando-os a ter uma sexualidade segura e planejada. Assim, se evita o aborto, e todo o seu custo e sofrimento, sem ter que obrigar ninguém a agir contra a vontade.

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