Coaching, Gestão

Qual é o seu papel na comunicação interna?

Sonia Carvalho
Qual é o seu papel na comunicação interna?O profissional de comunicação interna vive o dilema do papel que deve exercer: ser a voz do povo ou o porta-voz da gerência. Nem um nem outro. Seu papel é ser um tradutor.

Recentemente li um artigo em uma revista americana em que o autor fazia reflexões neste sentido. E vi que se aplicava integralmente à realidade que tenho encontrado nas empresas brasileiras. Os profissionais de comunicação interna devem ser os heróis dos funcionários e, de quando em quando, lembrar a gerência que eles não estão satisfeitos? Ou atender aos chamados líderes, entuchando funcionários entendiados com normas da empresa, visões, missões e valores? Será que o papel do comunicador interno é divulgar as promoções, as contratações, as efemérides, os aniversários?

Dependendo do local onde você trabalha provavelmente terá de fazer todas essas coisas em diferentes graus. Mas nenhuma delas deve ser sua principal preocupação. Como profissional de comunicação interna, seu papel é ajudar os funcionários a ajudar a organização a ser bem-sucedida. E você não faz isso enterrando-os em valores e listando promoções e aniversários.
Como se faz isso? Uma maneira certa de ajudar os funcionários a ajudar a organização a ser uma das coisas que toda companhia precisa: um tradutor.

Tire o jargão da sua frente

Aqui está um indiscutível fato na vida do mundo dos negócios: todo grupo tem o seu jargão, um léxico que apenas as pessoas com formação naquela área podem entender.

Economistas têm seu jargão, marqueteiros têm o deles. Engenheiros, vendedores, ferramenteiros, advogados – eles falam seus próprios idiomas particulares, carregados de acrônimos, termos e frases que ninguém mais na organização os compreende.

Você já ouviu dois profissionais de RH conversando entre si? Soa como se eles estivessem falando um dos idiomas de alienígenas de Guerra nas Estrelas.

E a turma da Tecnologia da Informação?

Certa vez fui contratada por uma empresa para fazer um boletim voltado exclusivamente para a área de TI. Confesso que rompi com todas as minhas regras e várias vezes escrevi palavras que não faziam o menor sentido para mim. Parecia um dialeto distante de uma civilização que ainda vai surgir.

Como comunicador, nosso papel é traduzir esses idiomas diferentes para o resto da organização. Precisamos ser a ponte entre nossos vários especialistas e o comum dos mortais, que é o funcionário. Porque quanto mais funcionários entenderem como as diferentes áreas da organização funcionam, estarão em melhor posição para ajudar a empresa a ser bem-sucedida.

O problema de ser um tradutor é que, antes de qualquer coisa, temos de entender o que especialista está dizendo. Isso pode ser difícil porque não somos peritos naquele campo. Não vamos às mesmas conferências do que eles; não lemos os mesmos livros; simplesmente não conhecemos a linguagem.

É por isso que a única forma de separar o jargão deles está no próprio início do processo – durante a entrevista.

Se você sair da entrevista sem um entendimento completo e livre dos jargões do assunto em questão, você falhou.

Não há como você escrever uma boa história para qualquer nível da organização entender se você mesmo não entender o assunto. Isso soa óbvio, mas na verdade raramente ocorre. E você sabe porquê. Durante uma típica entrevista, a natureza humana toma conta de ambos os lados. O comunicador não quer parecer um idiota. Quando o especialista começa a cuspir todo seu jargão habitual, o comunicador não quer interromper e dizer: “Não tenho a menor idéia do que você está falando”.

Ao invés disso, copia todo o jargão, aquiesce como se entendesse e depois não tem escolha a não ser usar as misteriosas palavras na matéria.

No outro lado da moeda, a fonte é o especialista. Ele quer falar como se soubesse coisas que ninguém mais sabe! Quer provar que toda sua formação e experiência não foram tempo perdido. Por isso, começa usando palavras que apenas um verdadeiro perito usaria – ou entenderia. O resultado é uma linguagem inarticulada e codificada. Como um jornalista ou responsável pela comunicação interna, você precisa fazer duas coisas:

1. Deixe seu ego do lado de fora da porta
Não esquente a cabeça com o que as pessoas vão pensar de você. Não deixe a sala de entrevista (ou desligue o telefone) antes de ter entendido perfeitamente o assunto.

2. Deixe a fonte fazer seu discurso e comporte-se como se estivesse em uma sala de aula.
Faça com que se comporte como um professor, não como um especialista. Diga coisas como “Cara, você realmente entende deste assunto. Ele é muito complicado, mas com sua inteligência, acho que poderemos explicá-lo para os funcionários. Você acredita que isso seja possível?”

Se você está disposto a deixar o seu ego de lado e dar espaço para que sua fonte mostre todo seu brilhantismo e conhecimento, você tem uma boa chance de fazer com que esse jargão pessoal seja entendido por todos.

Eu fiz centenas, se não milhares de entrevistas com especialistas durante minha carreira. Com o passar dos anos, aprendi que, como jornalista, você deve tirar o seu ego do caminho e admitir para o entrevistado que não tem a menor idéia sobre o tema que estão tratando.

Eu uso duas frases para fazer isso. A primeira é: “O que você quer dizer com isso?”. Quando um profissional de Recursos Humanos me diz: “Mecanismos de remuneração como stock options e remuneração variável alinhados com os interesses dos investidos”; ou “O sucesso da companhia com esses programas certamente irá inspirar outras pessoas a adotar novas estruturas de remuneração”, eu o olha diretamente nos olhos, e deixo escapar uma pitada de ingênuo veneno: “O que você quer dizer com isso?”

O especialista no assunto provavelmente vai refazer o seu jargão e falará novamente a mesma coisa para você de forma diferente. Se preciso, eu me comporto como um velho disco de vinil arranhado:

– O que você quer dizer com isso? O que você quer dizer com isso?

Passados trinta minutos, a fonte quase sempre cede e começa a falar numa linguagem que eu entendo.

Tenho que admitir que fiz várias entrevistas onde o truque do “O que significa isso?” não funcionou. Quando isso acontece, eu tiro minha maior carta da manga. Se a fonte insiste em falar como um consultor especialista, eu peço reiteradamente a ele, sem problema algum, que fale comigo como se eu fosse uma pessoa de carne e osso. Se nada disso adiantou, eu me recosto na cadeira, coloco a caneta na mesa e falo;

– “Me trate como se eu fosse um idiota”.

A fonte certamente vai exclamar: “O quê?”

– Isso mesmo. Imagine que eu sou o maior retardado mental que você já encontrou em toda a sua vida. Explique o que você está falando de uma forma que até esse retardado aqui possa entender.

Essa estratégia costuma levar as fontes a pensar de forma diferente e começar a explicar o assunto mais claramente. Mas invariavelmente elas saem da trilha e tenho de dizer:

– Espere um momento….. Lembre-se, eu sou um idiota”.

É claro que, mais de uma vez, a fonte me disse: “Realmente você é um idiota”. Mas, para mim, esse é um pequeno preço a pagar para sair de uma entrevista entendendo completamente o assunto.

Sonia Carvalho é consultora em Comunicação Interna
e-mail

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s